sábado, 26 de março de 2016

Cancro.

Para quem não sabe (quem felizmente não tem ninguém próximo a passar ou que já passou por isso), o Cancro é uma coisa que apesar de magoar fisicamente a pessoa que sofre da doença, magoa mais essa pessoa, por ver a reação de quem a rodeia. Aqueles choros todos, aquelas frases de ''coitada'', aquelas reações estúpidas, ou até mesmo não-sentidas, por vezes.
Mas acho que é fácil de adivinhar que o que mais magoa dentro de toda a gente, são as mais próximas. Mais próximas que os amigos, ou até mesmo que pais e irmãos. 
O que mais magoa, para um adulto, com uma 'vida feita', é ver o marido/mulher, e filhos, e como eles reagem.
Recentemente a minha mãe teve a notícia que pôde parar os tratamentos dela. Uma injeção, todos os meses. Para uma pessoa que vê isto de longe pensa '' ah, uma injeção. apesar de custar, é uma injeção, nada mais ''. Mas quando é uma injeção todos os meses, ao fim de uns bons anos, talvez já seja mais considerável. E para uma pessoa que sofreu de Cancro, então é mais notável ainda. E se acrescentar que essa pessoa tem um medo profundo de agulhas, então pode ser considerada uma Campeã.
Estava eu no meu sétimo ano e a minha mãe foi diagnosticada com Cancro na mama. Lembro-me de ter essa notícia, sinceramente não me lembro onde, como ou de que forma. Mas lembro-me de agir com um ''ok''.
Magoei imenso a minha mãe. Foram anos difíceis para toda a família, especialmente para os meus pais. Eu para ser sincero, só me apercebi da verdadeira natureza da doença a meio do tratamento, Estava a minha mãe em quimioterapia. E chorei. chorei muito, percebi todos os erros que cometi, em vez de estar a apoiar a minha mãe. Revoltei-me muito, não quis saber mais da escola, da minha família, de nada. E não me lembro de nada antes disso.
Talvez antes, quando me lembro da minha mãe a chorar, e eu a ser a criança estúpida que fui, me lembre que fomos todos rapar o cabelo com ela (A minha mãe nunca foi mulher de perucas, sempre lenços. Nunca usou aquelas coisas ridículas para esconder a doença. Ridículas a meu ver, embora entende quem as use. É um processo muito difícil, como tenho vindo a repetir constantemente. Apenas acho que se tiverem força para dizer 'não' a perucas, então é mais um ponto para a luta, para vencê-la). Não me lembro da minha mãe no hospital, não me lembro de conversas a explicarem-me, não me lembro da minha mãe em casa, nada. Lembro-me de uma situação em que a minha mãe desmaiou e foi o meu irmão, talvez com cinco, seis anos (se tanto), que chamou o meu pai porque a mãe tinha 'adormecido de repente'. Lembro-me da ambulância, da reação do meu pai. Não me lembro de como agi. Lembro-me também dela sorrir para mim, como se tudo estivesse bem. Lembro-me de ver cabelo na almofada dela, e ela a chorar. Lembro-me muito dela a chorar, são imagens que não desapareceram mais. 
E eu, parvo, a armar-me em rebelde e não apoiar ninguém. Ninguém excepto o meu pai, que se fazia de forte, e só era capaz de chorar abraçado a mim, longe da minha mãe. 
O meu pai foi um grande pilar para a minha mãe, o maior de todos com muita certeza. Foi alguém que nunca desistiu, mesmo quando ela pensou em fazê-lo (mesmo que tenha sido por breves momentos). Acompanhou-a sempre, cuidou de tudo o que havia para cuidar quando não era ela a fazê-lo, seja por que motivo fosse, foi tudo o que um marido devia, podia, e tinha que ser. Tenho muito orgulho no meu pai, especialmente nesses momentos.
O meu irmão, felizmente, era muito pequeno quando tudo começou, e agora quando viu a felicidade que foi saber que tudo terminou, então ficou, literalmente, 'à toa'.
Eu, por outro lado, devia ter sido mais crescido.
Quando me apercebi, apoiei muito pouco na mesma; arranjava (mesmo que inconscientemente por vezes) sempre onde estar e o que fazer nas sextas feiras à tarde (era o dia de injeção), para não estar perto da minha mãe, que passava o fim de semana inteiro 'de cama', porque a injeção fazia-lhe isso, básicamente. A injeção existia para eliminar as hormonas restantes, algo que a minha mãe teve que sofrer para que não se espalhasse.
São demasiados detalhes, que sei que nem o meu pai se lembra de todos
Mas a minha mãe sim, lembra-se. Disso eu tenho a certeza.
Talvez daqui a um ano, no dia 18 de Março de 2017, quando festejarmos o primeiro ano sem injeções, sem luta contra o Cancro, eu escreva todo o processo com a minha mãe, e o partilhe.
Mas hoje, escrevo isto para desabafar. Não tenho um porquê de escrever, um porquê de querer partilhar, um porquê de o estar a fazer. Apenas fiz, e quis fazer. 
O Cancro merece uma letra maiúscula na minha vida. Magoou-me muito, mesmo que só me tenha apercebido muito tarde. Gostava imenso de reverter certas atitudes que tive, gostava de corrigir algumas, mas talvez não o devesse fazer. A pessoa que sou, tornou-se no que é, em parte por causa Dele. Não me tornou perfeito, nem perto. Mas mudou-me muito. 
A todas a pessoas que passam por isto, Força. Sejam fortes, porque não é fácil, mas o sabor da vitória sabe demasiado bem, por isso vençam, assim como nós vencemos.
A todas as pessoas que acompanham alguém que passe por isto, sejam fortes por elas, quando elas não o conseguem ser. E acreditem, existem muitas situações dessas. E nunca, por maior que seja a vontade, se revoltem e errem como eu errei. Arrepender-se-ão para a vida.
Força. Apoiem-se num amigo; num familiar; em deus, se acreditam nele, seja ele qual for; num animal ( a minha mãe jurou que quando acabasse os tratamentos ia comer uma sandes de presunto com uma cerveja e que dividiria com a cadela dela, e assim foi ); mas Força, nunca desistam, estamos todos aqui para vocês.




Assim como ele estará sempre cá para nos assombrar...

'Get Away'

'Tu não percebes que eu dava o mundo para ficar contigo se as coisas efetivamente resultassem! Tu não percebes que eu sofro! Tu não percebes que esta relação so nos estava a destruir! Tu não percebes que também é difícil caramba, tu eras a minha vida! Mas eu não quero sofrer, não quero lidar mais com as tuas merdas! Tou cansada é preciso de liberdade que era coisa que eu não tinha quando estava ctg!'
Recebi esta mensagem num dia difícil. Juntamente com esta mesma música. 'Get Away' foi uma música que não conhecia, mas que quando ma enviaste, passei a conhecer tão bem que ainda hoje, quando fui àquela tua página, me lembrei de tudo. Do que senti quando me enviaste a mensagem, do que senti quando ouvi a música, do que fiquei a sentir no fim do dia.
Se é que alguém segue isto, então esqueci-me de partilhar a felicidade que foi ter-te de volta. Este blog passou de algo subjectivo, que transmitia os meus sentimentos de uma perspectiva diferente, sem dar nomes, ocasiões e sentimentos de forma direta, mas sim abstracta, para um blog que era o mais direto possível, para que a pessoa que realmente queria que o lesse percebesse exatamente tudo o que queria transmitir. Hoje, penso em como trazer o antigo blog de volta, que a meu ver, era algo engraçado de seguir.
Talvez se torne um blog diferente do que era e do que é; talvez deixe de ser apenas sobre uma parte do que me faz feliz, mas sim sobre tudo.
Mas devia partilhar que a pessoa com quem me sinto bem, com quem gosto de dividir a minha vida, partilhar o meu dia e amar incondicionalmente, está de volta a meu lado. A minha mãe diz que ''mesmo com discussões que vamos tendo e tudo mais, é para casar''
Será mãe ? Não brinques com isso, é demasiado bom para ser uma coisa com que se possa brincar.
Bom, vou tentar que isto se torne algo bacano.





Ao fim de tanto tempo sem escrever aqui deves ser a única pessoa a seguir isto homem !