Mas acho que é fácil de adivinhar que o que mais magoa dentro de toda a gente, são as mais próximas. Mais próximas que os amigos, ou até mesmo que pais e irmãos.
O que mais magoa, para um adulto, com uma 'vida feita', é ver o marido/mulher, e filhos, e como eles reagem.
Recentemente a minha mãe teve a notícia que pôde parar os tratamentos dela. Uma injeção, todos os meses. Para uma pessoa que vê isto de longe pensa '' ah, uma injeção. apesar de custar, é uma injeção, nada mais ''. Mas quando é uma injeção todos os meses, ao fim de uns bons anos, talvez já seja mais considerável. E para uma pessoa que sofreu de Cancro, então é mais notável ainda. E se acrescentar que essa pessoa tem um medo profundo de agulhas, então pode ser considerada uma Campeã.
Estava eu no meu sétimo ano e a minha mãe foi diagnosticada com Cancro na mama. Lembro-me de ter essa notícia, sinceramente não me lembro onde, como ou de que forma. Mas lembro-me de agir com um ''ok''.
Magoei imenso a minha mãe. Foram anos difíceis para toda a família, especialmente para os meus pais. Eu para ser sincero, só me apercebi da verdadeira natureza da doença a meio do tratamento, Estava a minha mãe em quimioterapia. E chorei. chorei muito, percebi todos os erros que cometi, em vez de estar a apoiar a minha mãe. Revoltei-me muito, não quis saber mais da escola, da minha família, de nada. E não me lembro de nada antes disso.
Talvez antes, quando me lembro da minha mãe a chorar, e eu a ser a criança estúpida que fui, me lembre que fomos todos rapar o cabelo com ela (A minha mãe nunca foi mulher de perucas, sempre lenços. Nunca usou aquelas coisas ridículas para esconder a doença. Ridículas a meu ver, embora entende quem as use. É um processo muito difícil, como tenho vindo a repetir constantemente. Apenas acho que se tiverem força para dizer 'não' a perucas, então é mais um ponto para a luta, para vencê-la). Não me lembro da minha mãe no hospital, não me lembro de conversas a explicarem-me, não me lembro da minha mãe em casa, nada. Lembro-me de uma situação em que a minha mãe desmaiou e foi o meu irmão, talvez com cinco, seis anos (se tanto), que chamou o meu pai porque a mãe tinha 'adormecido de repente'. Lembro-me da ambulância, da reação do meu pai. Não me lembro de como agi. Lembro-me também dela sorrir para mim, como se tudo estivesse bem. Lembro-me de ver cabelo na almofada dela, e ela a chorar. Lembro-me muito dela a chorar, são imagens que não desapareceram mais.
E eu, parvo, a armar-me em rebelde e não apoiar ninguém. Ninguém excepto o meu pai, que se fazia de forte, e só era capaz de chorar abraçado a mim, longe da minha mãe.
O meu pai foi um grande pilar para a minha mãe, o maior de todos com muita certeza. Foi alguém que nunca desistiu, mesmo quando ela pensou em fazê-lo (mesmo que tenha sido por breves momentos). Acompanhou-a sempre, cuidou de tudo o que havia para cuidar quando não era ela a fazê-lo, seja por que motivo fosse, foi tudo o que um marido devia, podia, e tinha que ser. Tenho muito orgulho no meu pai, especialmente nesses momentos.
O meu irmão, felizmente, era muito pequeno quando tudo começou, e agora quando viu a felicidade que foi saber que tudo terminou, então ficou, literalmente, 'à toa'.
Eu, por outro lado, devia ter sido mais crescido.
Quando me apercebi, apoiei muito pouco na mesma; arranjava (mesmo que inconscientemente por vezes) sempre onde estar e o que fazer nas sextas feiras à tarde (era o dia de injeção), para não estar perto da minha mãe, que passava o fim de semana inteiro 'de cama', porque a injeção fazia-lhe isso, básicamente. A injeção existia para eliminar as hormonas restantes, algo que a minha mãe teve que sofrer para que não se espalhasse.
São demasiados detalhes, que sei que nem o meu pai se lembra de todos
Mas a minha mãe sim, lembra-se. Disso eu tenho a certeza.
Talvez daqui a um ano, no dia 18 de Março de 2017, quando festejarmos o primeiro ano sem injeções, sem luta contra o Cancro, eu escreva todo o processo com a minha mãe, e o partilhe.
Mas hoje, escrevo isto para desabafar. Não tenho um porquê de escrever, um porquê de querer partilhar, um porquê de o estar a fazer. Apenas fiz, e quis fazer.
O Cancro merece uma letra maiúscula na minha vida. Magoou-me muito, mesmo que só me tenha apercebido muito tarde. Gostava imenso de reverter certas atitudes que tive, gostava de corrigir algumas, mas talvez não o devesse fazer. A pessoa que sou, tornou-se no que é, em parte por causa Dele. Não me tornou perfeito, nem perto. Mas mudou-me muito.
A todas a pessoas que passam por isto, Força. Sejam fortes, porque não é fácil, mas o sabor da vitória sabe demasiado bem, por isso vençam, assim como nós vencemos.
A todas as pessoas que acompanham alguém que passe por isto, sejam fortes por elas, quando elas não o conseguem ser. E acreditem, existem muitas situações dessas. E nunca, por maior que seja a vontade, se revoltem e errem como eu errei. Arrepender-se-ão para a vida.
Força. Apoiem-se num amigo; num familiar; em deus, se acreditam nele, seja ele qual for; num animal ( a minha mãe jurou que quando acabasse os tratamentos ia comer uma sandes de presunto com uma cerveja e que dividiria com a cadela dela, e assim foi ); mas Força, nunca desistam, estamos todos aqui para vocês.